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Dependência em apostas: sinais, tratamento e como proteger a família

O transtorno do jogo é uma condição de saúde reconhecida. Entenda os sinais, as opções de tratamento e as medidas práticas para reduzir danos financeiros.

Redação Guia da Recuperação · publicado em 02 de setembro de 2026 · atualizado em 14 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

O que muitas pessoas chamam de vício em apostas tem nome e reconhecimento na saúde: transtorno do jogo. Com a expansão das apostas online no Brasil, cada vez mais famílias procuram entender o que está acontecendo com alguém próximo e onde encontrar ajuda. Este guia explica, de forma geral, o que caracteriza o problema, quais são as opções de tratamento e que medidas práticas podem proteger a família.

Uma condição de saúde reconhecida

A Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, na sua 11ª revisão, a CID-11, inclui o transtorno do jogo sob o código 6C50, no grupo dos transtornos devidos a comportamentos aditivos. A classificação diferencia o padrão predominantemente presencial do predominantemente online.

De forma geral, o transtorno se caracteriza por:

  • perda de controle sobre o ato de apostar, como início, frequência, intensidade e duração;
  • prioridade crescente dada às apostas em relação a outros interesses e atividades do dia a dia;
  • continuidade ou aumento das apostas apesar de consequências negativas;
  • prejuízo significativo na vida pessoal, familiar, social, profissional ou financeira.

O diagnóstico é feito por profissional de saúde, que avalia o padrão ao longo do tempo. Reconhecer o problema como condição de saúde ajuda a reduzir culpa e vergonha, que costumam manter a pessoa em silêncio.

O contexto das apostas online no Brasil

As apostas esportivas e jogos online de quota fixa, conhecidos como "bets", tiveram crescimento acelerado no país. A Lei 14.790/2023 regulamentou a modalidade de apostas de quota fixa, e a regulação e fiscalização das empresas autorizadas estão sob responsabilidade do Ministério da Fazenda.

A regulamentação prevê, entre outros pontos, regras de publicidade, proibição de apostas por menores de 18 anos e medidas voltadas ao jogo responsável, como ferramentas de limite e de autoexclusão nas plataformas autorizadas. As regras detalhadas mudam com frequência; para informações atualizadas, consulte os canais oficiais do Ministério da Fazenda.

O acesso pelo celular, a qualquer hora, com depósitos instantâneos e bônus, torna mais fácil perder a noção de tempo e dinheiro. Isso não significa que toda pessoa que aposta desenvolverá um transtorno, mas explica por que o tema chegou a tantas casas.

Sinais de alerta

Na própria pessoa ou em alguém próximo, fique atento a:

  • apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção;
  • tentar recuperar o que perdeu apostando mais;
  • mentir ou esconder quanto tempo e dinheiro gasta;
  • pedir dinheiro emprestado, vender bens ou atrasar contas por causa das apostas;
  • irritação ou inquietação ao tentar diminuir ou parar;
  • apostar para aliviar tristeza, ansiedade ou estresse;
  • tentativas repetidas e malsucedidas de controlar o comportamento;
  • prejuízos no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos;
  • uso de dinheiro destinado a despesas básicas da casa.

Pensamentos de morte ou de suicídio podem aparecer, especialmente diante de dívidas. Se isso acontecer, busque ajuda imediatamente pelo 188 do CVV ou pelo 192 do SAMU.

Opções de tratamento

Psicoterapia

A psicoterapia é a base do tratamento. A terapia cognitivo-comportamental, a TCC, é uma das abordagens mais estudadas para o transtorno do jogo. Ela ajuda a identificar pensamentos distorcidos sobre as apostas, como a ideia de que uma vitória está "perto", reconhecer gatilhos e desenvolver estratégias para lidar com a vontade de apostar.

Abordagens motivacionais também são usadas, principalmente no início, quando a pessoa ainda está ambivalente sobre mudar.

Acompanhamento ambulatorial

O tratamento costuma ser ambulatorial, com consultas regulares. Uma avaliação psiquiátrica é importante porque o transtorno do jogo frequentemente aparece junto com depressão, ansiedade, uso de álcool ou outras drogas e outros quadros, que também precisam de cuidado. Quando indicado, o médico pode prescrever medicamentos para essas condições associadas.

Pelo SUS, a porta de entrada pode ser a Unidade Básica de Saúde ou um CAPS. Veja tratamento pelo SUS. No diretório, há serviços de tratamento ambulatorial.

Grupos de apoio

Jogadores Anônimos é um grupo de mútua ajuda para pessoas com problemas relacionados ao jogo, com reuniões no Brasil, presenciais e online. Familiares também podem buscar grupos de apoio e atendimento em serviços de saúde mental.

Quando o cuidado residencial pode ser considerado

A internação ou o tratamento residencial não são o caminho habitual. Podem ser considerados, com indicação profissional, em situações como:

  • risco de suicídio;
  • uso associado de álcool ou outras drogas que exige cuidado intensivo;
  • outro transtorno mental grave;
  • ausência de resposta a tratamentos ambulatoriais bem conduzidos.

Veja mais na página de tratamento para jogo e apostas.

Medidas práticas de proteção financeira

Proteger as finanças não substitui o tratamento, mas reduz danos enquanto ele acontece. Essas medidas funcionam melhor quando combinadas com a pessoa, e não impostas às escondidas.

  1. Autoexclusão e bloqueios. A pessoa pode usar as ferramentas de autoexclusão das plataformas autorizadas e aplicativos de bloqueio de sites de apostas no celular e no computador.
  2. Controle de acesso ao dinheiro. Reduzir limites do cartão, desativar compras online, remover cartões salvos em aplicativos e combinar que outra pessoa de confiança acompanhe temporariamente as contas.
  3. Separação de contas. Manter as despesas essenciais da casa em conta separada, protegida.
  4. Levantamento das dívidas. Fazer, junto com a pessoa, uma lista honesta de tudo o que deve. Conhecer o tamanho real do problema é o primeiro passo para negociar.
  5. Cuidado ao quitar dívidas. Pagar todas as dívidas de uma vez, sem tratamento em andamento, pode aliviar a pressão momentaneamente e não resolver o comportamento. Planeje com orientação.
  6. Proteja seu patrimônio. Não empreste nome, cartão ou senhas, e evite ser fiador ou avalista enquanto a situação não estiver estável.
  7. Busque orientação. Procon, Defensoria Pública e serviços de educação financeira podem ajudar a renegociar dívidas.

Para a família

Raiva e sensação de traição são reações compreensíveis, principalmente quando há mentiras e perdas financeiras. Ainda assim, humilhação e ameaças tendem a empurrar o comportamento para a clandestinidade. O guia como conversar com um familiar sobre tratamento traz orientações que também valem para apostas.

Em risco imediato, ligue 192 (SAMU). Para apoio emocional, o CVV atende 24 horas pelo 188. Veja outros caminhos em ajuda agora.

Perguntas frequentes

Apostar muito é sempre um transtorno?

Não. O transtorno do jogo se caracteriza pela perda de controle sobre o comportamento de apostar, pela prioridade crescente dada às apostas e pela continuidade apesar de prejuízos importantes, por um período prolongado. O diagnóstico é feito por profissional de saúde.

Qual tratamento funciona para dependência em apostas?

A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, é uma das abordagens mais estudadas. O acompanhamento costuma ser ambulatorial e pode incluir tratamento de quadros associados, como depressão e ansiedade, além de grupos de apoio como Jogadores Anônimos.

É preciso internar uma pessoa com dependência em apostas?

Na maioria dos casos, não. O tratamento é principalmente ambulatorial. Um cuidado mais intensivo ou residencial pode ser considerado em situações específicas, como risco de suicídio, uso associado de álcool ou drogas ou falta de resposta ao tratamento ambulatorial, sempre com indicação profissional.

Como a família pode se proteger financeiramente?

Conversando abertamente sobre as finanças, separando contas, protegendo cartões e senhas, evitando assumir dívidas no lugar da pessoa sem planejamento e buscando orientação financeira e jurídica quando houver dívidas relevantes.

Fontes consultadas

Conteúdo informativo, sem patrocínio. Não substitui avaliação médica, psicológica ou orientação jurídica sobre um caso específico. Última revisão editorial em 14 de setembro de 2026.

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